E se o que mais incomoda no outro também estiver falando sobre você?
É relativamente fácil perceber aquilo que o outro fez.
“Ele me rejeitou.”
“Ela não me valoriza.”
“Meu parceiro não me dá a atenção que eu preciso.”
“Meu chefe não reconhece o meu valor.”
Mais difícil é fazer uma pergunta diferente:
Por que isso me atinge dessa maneira?
Quando uma situação desperta uma emoção muito intensa, nossa primeira tendência pode ser olhar apenas para aquilo que aconteceu fora. Mas nem sempre reagimos somente ao presente. Algumas experiências encontram dentro de nós histórias, medos, crenças e feridas emocionais construídas ao longo da vida.
É nesse ponto que podemos começar a falar sobre projeção e responsabilidade emocional.
Imagine, por exemplo, uma pessoa que cresceu sentindo que precisava fazer muito para ser reconhecida. Na vida adulta, ela envia uma mensagem e não recebe resposta.
O fato é simples: a pessoa ainda não respondeu.
Mas, internamente, podem surgir pensamentos como:
“Ela não se importa comigo.”
“Eu fiz alguma coisa errada.”
“Ela está me rejeitando.”
“Eu não sou importante.”
Percebe a diferença?
Existe aquilo que aconteceu e existe o significado emocional que atribuímos ao que aconteceu.
Isso não significa que toda dor seja uma projeção. Existem desrespeito, mentira, abandono, manipulação e comportamentos que são responsabilidade de quem os pratica. Olhar para si não significa aceitar tudo, justificar o outro ou assumir uma culpa que não é sua.
Responsabilidade emocional é conseguir separar:
O que aconteceu.
O que eu senti.
O que eu interpretei sobre aquilo que aconteceu.
Quando fazemos essa separação, começamos a recuperar algo muito importante: a possibilidade de escolha.
Talvez aquela necessidade constante de aprovação não tenha começado no relacionamento atual. Talvez o medo de ser abandonada seja mais antigo. Talvez a necessidade de controlar, agradar ou ser reconhecida esteja tentando proteger uma parte sua que, em algum momento, aprendeu que precisava fazer muito para receber amor, atenção ou pertencimento.
E é justamente por isso que olhar para dentro pode ser tão desconfortável.
Enquanto toda a responsabilidade está no outro, esperamos que ele mude para que finalmente possamos ficar bem. Quando começamos a olhar para nós mesmas, uma nova pergunta aparece:
“O que essa situação está revelando sobre mim?”
Assumir responsabilidade emocional não é dizer: “A culpa é minha.”
Culpa paralisa. Responsabilidade devolve a possibilidade de escolha.
Podemos reconhecer que alguém nos feriu e, ao mesmo tempo, compreender o que aquela experiência despertou dentro de nós. Podemos colocar limites sem invalidar nossos sentimentos. Podemos devolver ao outro suas escolhas e consequências e assumir aquilo que realmente nos pertence: nossos sentimentos, nossas interpretações, nossos limites e nossas escolhas.
Talvez o amadurecimento emocional comece justamente quando paramos de perguntar apenas:
“Quem é o culpado?”
e começamos a perguntar:
“O que pertence ao outro e o que pertence a mim nessa história?”
E deixo uma reflexão para você:
Quando alguém desperta uma emoção muito intensa em você, será que você está reagindo somente à pessoa que está diante de você ou também a alguma história que essa situação encontrou dentro de você?
Deise Becker
Terapeuta | Mentora Sistêmica | Psicanalista
Contato: (48) 99155-5776
Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se