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Quinta-feira, 07 de Maio 2026
Mundo

NOVA GUERRA MUNDIAL

Sem armas

Alex Daros
Por Alex Daros
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NOVA GUERRA MUNDIAL
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No Brasil estamos tratando os conflitos comerciais tarifários como se estivéssemos em
tempos de paz. Por isso o estupor nacional. Guiamo-nos por signos de cooperação,
diálogo e equilíbrio, como se o cenário internacional ainda obedecesse à moral da paz
que presume boa-fé, acordos duradouros e ganhos mútuos. O mundo de Breton Woods.
Mas esse não é mais o mundo em que estamos. O Brasil é o pior analista de contexto do
planeta. Não entendemos o mundo como livro ou filme mas sim como novela.
Vivemos, de fato, sob a lógica da guerra, uma guerra ainda sem nome. Diferente das
duas grandes guerras do século XX ou da Guerra Fria, este novo conflito global é
difuso, simultaneamente armado e comercial, explícito e silencioso. Tem frentes de
batalha, mas também fronteiras invisíveis. Alguns comentaristas norte-americanos já
tratam Trump como um “war president “, outros como “freedom fighter.”
O conflito na Ucrânia, com seus impactos diretos na segurança energética e alimentar da
Europa, é apenas uma das expressões armadas dessa nova ordem em disputa. As tarifas
secundárias aplicadas à Índia, e talvez contra o Brasil, por pressão direta dos EUA estão
conectadas a esse mesmo jogo de poder. A reconfiguração tarifária global, por sua vez,
já impulsiona o rearmamento da OTAN e a reorganização das alianças industriais e
militares. Tudo está imbricado, em desenhos, mas não tem arquitetura finalizada, e por
isso ainda não tem nome. Tehran e Tel Aviv é outra matéria entre muitas.
É fundamental compreender que a moral da guerra é distinta da moral da paz, e muito
mais complexa. Nela, as ações são avaliadas não pelo idealismo, mas pela eficácia
estratégica. A moral da guerra autoriza medidas duras, dissimulações e rupturas que
seriam impensáveis em tempos de paz. Por isso, ela é mais perigosa. Essa ficha não caiu
no Brasil, nem quando a cabeça a prêmio de Nicolas Maduro já esteja em 50 milhões de dolares.

E essa lógica, como destacaram os teóricos Gaetano Mosca e Vilfredo Pareto, exige
responsabilidade histórica das elites. Mosca afirmava que todas as sociedades são
governadas por minorias organizadas, as elites, e sua legitimidade depende de sua
capacidade de liderar com visão e coesão. Pareto, por sua vez, via a alternância entre
elites decadentes e novas elites ascendentes como inevitável. Ambas as teses convergem
para uma conclusão atualíssima: as elites que não se renovam e não respondem aos
desafios de seu tempo são substituídas por colapso interno ou por força externa.
Hoje, as potências tradicionais, Estados Unidos, União Europeia, China e Rússia, estão
reconfigurando suas elites e suas estratégias. Algumas investem em inteligência
artificial, chips, armamento hipersônico, terras raras. Outras em narrativas e hegemonia
moral. Todas reconhecem que estão em guerra, mesmo que não a nomeiem assim. Estão
reorganizando sua lógica de comando.

O Brasil, ao contrário, permanece preso à retórica do passado e a disputas internas
autofágicas. As elites política, econômica, empresarial, financeira, intelectual,
eclesiástica, sindical e da imprensa brasileiras não dão sinais de compreender o tamanho
da responsabilidade que carregam. O Brasil opera sob a moral da paz, sem perceber que
o mundo já age pela moral da guerra. Essa desconexão já está nos custando caro.
A atual guerra comercial faz parte desse novo modelo de guerra mundial: econômica,
tecnológica, informacional. As armas não são tanques, mas sim dissuasão militar
nuclear, cadeias produtivas, algoritmos, tarifas, dados, controle de infraestrutura crítica
e dependência estratégica.
Há também a guerra de palavras, sentidos e narrativas. Um campo onde a linguagem é
manipulada para moldar percepções, confundir fatos e redesenhar o mapa de aliados e
inimigos. O “soft power” nunca foi tão incisivo — e, paradoxalmente, tão brutal.
Nesse contexto, o Brasil precisa sair da ingenuidade pacifista. Não se trata de abandonar
nossos compromissos com a paz e o multilateralismo, mas de entendê-los dentro da
realidade do mundo em que estamos inseridos. O tempo da neutralidade romântica
passou.
Esse novo cenário exige uma nova diplomacia: proativa, técnica, multifacetada. O
Brasil, potência agroambiental, democrática e pacífica, pode e deve ser útil a todos os
polos em disputa. Somos uma peça-chave nas cadeias globais de alimentos, energia,
minerais estratégicos, biodiversidade e inovação. Somos elo confiável e, por isso
mesmo, somos necessários.
Mas para isso, o Brasil precisa amadurecer rapidamente. O mundo não espera. Os
conflitos já estão em curso, as decisões são tomadas em tempo real e os espaços de
influência são ocupados por quem age, não por quem hesita.
Mosca e Pareto nos alertam: elites que não percebem o espírito do tempo são
ultrapassadas por forças maiores que sua própria ia inércia. Só com lucidez estratégica,
renovação de lideranças e visão de longo prazo poderemos transformar nossa relevância
potencial em influência concreta. Caso contrário, seremos apenas um território a ser
explorado e não um país soberano em um mundo em disputa.

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FONTE/CRÉDITOS: Vinicius Lemmertz
Alex Daros

Publicado por:

Alex Daros

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